Pe. Françoá Costa
Conhecer Jesus Cristo é o que o cristão mais deseja: conhecê-lo para amá-lo e servi-lo. Desta feita, realiza-se a finalidade da vida do ser humano nesta terra e prepara-se a feliz eternidade. São Paulo expressou esse desejo do conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo desta maneira: “tudo isso tenho por perda perante o eminente conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor, pelo qual renunciei todas as coisas, e as considero como esterco para ganhar a Cristo” (Fl 3,8).
Podemos conhecer Jesus Cristo como ele quis que o conhecêssemos: através do que ele nos revelou nas suas ações e nas suas palavras. De fato, Jesus Cristo revelou-se a si mesmo em primeiro lugar fazendo, ou seja, através de uma obra maravilhosa: sua encarnação redentora. Ele veio para nos redimir, para nos salvar. Ao fazê-lo, ensinou-nos sobre o seu Pai, sobre si mesmo e sobre o Espírito Santo, isto é, ensinou-nos sobre o único Deus em sua unidade perfeita e perfeita unicidade. A sua vida mortal deixou claro que ele veio oferecer o sacrifício expiatório por excelência, aquele da redenção do gênero humano.
Desde o começo da Igreja Católica, instituição fundada pelo próprio Jesus Cristo, precisamente ela é que tem o conhecimento perfeito de quem é Jesus Cristo e o que ele fez para nos salvar. Ela, a Igreja, tem a missão de ensinar a todos os povos e dar-lhes os sacramentos da salvação. De maneira semelhante a como a Igreja recebe a salvação do próprio Deus, os homens a recebem através da Igreja. Isto é tão importante na dogmática católica que é dogma de fé divina e católica que fora da Igreja não há salvação.
O conhecimento que nós temos de Nosso Senhor Jesus Cristo tem, portanto, uma lógica vertical: de Jesus para a Igreja e da Igreja para nós. Por mais que a Igreja Católica seja uma criatura de Deus, ela, indubitavelmente, está acima das demais criaturas no que se refere à missão salvífica. Por isso, todos os seres humanos têm que ouvir a Igreja. Não é verdade, portanto, que os homens aprendem as coisas divinas quando “caminham juntos”, de maneira sinodal. Na verdade, diante de Deus, todo ser humano deve fazer-se discípulo e escutar o que a Igreja docente tem a dizer-lhe. Efetivamente, todos temos que nos tornar crianças para entrarmos no Reino de Deus (Mt 18,4).
A cristologia, ou seja, o discurso que nós podemos fazer sobre Jesus Cristo só pode ser “de cima”, vem do alto. Não existe cristologia “de baixo”. De fato, quando os contemporâneos de Jesus Cristo viam o homem Jesus ali diante deles, não acreditavam necessariamente que ele é o Filho de Deus que veio para nos redimir dos nossos pecados. Basta abrir o Evangelho e ler tantas passagens nas quais aqueles que conheceram Jesus em carne mortal não somente rejeitaram a revelação salvadora que ele oferecia, mas inclusive muitos deles o crucificaram.
Afirmar que Jesus Cristo, aquele que viveu há dois milênios, é o Filho de Deus, o Salvador, o Redentor, o Deus conosco, é um ato de fé. É verdade que o ato de fé em Jesus pressupõe a sua história real: ele nasceu, viveu, fez milagres, revelou o que Deus queria, morreu para nos redimir, ressuscitou e está em todo o seu poder e glória no céu.
Não há, portanto, um Jesus ideal, construtor de uma religião universal da paz e do bem, e outro Jesus real, que viveu na Palestina, mas que teria sido mitificado pelos seus discípulos como consequência do seu fracasso. Tais considerações sobre Nosso Senhor Jesus Cristo, além de serem sacrílegas, são fruto de uma cristologia “de baixo”, não somente a partir do que a “crítica moderna” chamou de “Jesus histórico”, mas “de baixo” no sentido de que provém das profundezas onde mora Satanás.
A nossa metodologia para conhecer Jesus Cristo é aquela que os nossos antigos Padres utilizaram. Assim como o deles, o nosso discurso sobre Jesus Cristo (cristologia) é aquele que se inscreve perfeitamente na Tradição, da qual também faz parte a própria Sagrada Escritura, que tanto nos fala sobre Jesus Cristo.
Homens de mente perversa, os hereges, não conheceram Jesus Cristo na Tradição e, por isso, se afastaram da verdade. O padre Ário, o bispo Nestório, o monge Êutiques, entre outros heresiarcas, se equivocaram por não receberem Jesus Cristo na Tradição, a mesma que o Espírito Santo garante durante os séculos da Igreja. Ao contrário, os nossos Santos Padres, como Atanásio, Cirilo e Leão Magno, foram fiéis ao ensinamento que veio “de cima”, falavam das coisas divinas que eles tinham recebido mediante a Igreja, a qual as recebeu do próprio Jesus Cristo.
Atualmente, apesar da fama de teólogos e filósofos como Immanuel Kant, Reimarus, Strauss, Alfred Loisy, Karl Rahner, Teilhard de Chardin, Rudolf Bultmann, Hans Küng, Leonardo Boff, é preciso dizer que todos eles oferecem uma visão distorcida sobre Jesus Cristo. Esses hereges modernos tampouco podem ser escutados pelos fiéis; pelo contrário, todas as suas doutrinas perversas devem ser condenadas. Tampouco aqueles autores mais discretos, como Henri de Lubac e Joseph Ratzinger, deveriam ser lidos pelos fiéis, já que oferecem, aqui e acolá, visões distorcidas sobre aquilo que Jesus Cristo deixou para a sua Igreja, fruto do apoio muito corroborado desses autores às ideias revolucionárias que vingaram no Concílio Vaticano II e no pós-Concílio.
As interpretações atuais da Bíblia que despojam-na do seu sentido sagrado, dos seus milagres, ressurreições, exorcismos e revelações, são consequências de um discurso sobre Jesus Cristo que vem “de baixo”, que têm como pressuposto um Jesus ideal, a modo kantiano.
De fato, Immanuel Kant tinham uma grande admiração pelo Jesus ideal, aquele que não ultrapassa os limites da razão e seria o fundador de uma religião universal do amor; contudo, tinha certa aversão ao Jesus real, aquele personagem histórico que pregava temas exigentes, revelava o mistério de Deus e fazia milagres. Para Kant, esse Jesus histórico ultrapassa tanto a razão que ele não pode ter existido ou se existiu não podemos conhecê-lo, faz parte do “noumenon” e, portanto, permanece inacessível. Como só temos acesso ao “fenomenon”, aquilo que se mantém nos limites da racionalidade, Kant diria que o melhor é despojar aquele “mito” do Evangelho, o Jesus que dizem que é “histórico”, para ficarmos apenas como Jesus ideal, o fundador da religião universal, que não compromete muito e une todas as religiões.
Talvez a sacrílega opinião de Kant encontrou sucesso na pluma de vários autores, especialmente de Harnack e de Bultmann. Contudo, não vale a pena continuar a ressaltar mais uma vez esse acúmulo de heresias e descobrir as diversas faces de uma mesma coisa: eles não acreditam em Jesus Cristo, eles não têm fé. Sendo assim, tampouco acreditam na inspiração nem na inerrância da Sagrada Escritura. Para esses pérfidos autores, a Bíblia está errada e, consequentemente, será preciso corrigi-la, modernizá-la, interpretar conforme os nossos tempos, entendê-la em seu contexto histórico. Enfim, todos eles dizem de diversas maneiras a mesma coisa: quando não se tem fé e se quer viver apenas no nível da razão, negar a historicidade do Evangelho e do restante da Escritura Santa é fazer com que tudo seja facilmente interpretado ao gosto moderno.
Os séculos XX e XXI são testemunhas desta maneira de entender a Bíblia e, infelizmente, não é raro ver, inclusive em pessoas que ocupam cargos muito altos dentro da própria Igreja Católica, essa mesma falta de fé. Consequentemente, facilmente negarão a ressurreição de Jesus, entenderão a multiplicação dos pães como uma partilha fraterna, interpretarão que as passagens que dizem a moral natural devem ser interpretadas adaptadas aos nossos tempos desavergonhados, dirão que o inferno não existe e que era apenas um mito dos povos antigos, afirmarão que Sodoma foi destruída por causa da falta de acolhimento aos migrantes, que a saída do povo do Egito para a terra prometida foi a busca de uma luta mais organizada contra a burguesia para criar uma sociedade sem classes.
Diante desse cenário anti-cristão, por vezes dentro da própria Igreja, além do católico fiel se sentir perplexo, é preciso fazer algo para defender a honra do seu rei, Nosso Senhor Jesus Cristo; o cristão precisa defender a fama de sua mãe, a Igreja Católica. Enfim, um filho de Deus deve lutar pela sua fé.
O conhecimento de Jesus Cristo vem a nós pela fé apostólica, é a ela que devemos apegar-nos cada vez mais. Se não for assim, também nós temos o risco muito grave de nos perdermos em meio a tantas heresias, na época da apostasia das nações na qual vivemos. Por outro lado, ainda que os pérfidos defendam uma “racionalidade” que os afastam de Jesus Cristo, não é verdade que sejam tão racionais quanto parecem, uma vez que Deus fez o ser humano capaz de conhecê-lo e amá-lo. Se bem é verdade que a fé encontra-se acima da razão, a fé exige de nós um obséquio razoável, já que a fé assenta-se precisamente na nossa inteligência. No fundo, a fé (católica) não é contra a razão, mas aquela realidade sobrenatural que eleva a razão a níveis insuspeitados pela própria inteligência humana. A razão humana é mais enobrecida quando tem a fé. Por isso a Sagrada Escritura chama os ateus de insensatos e corrompidos (Sl 13. 52).
A cristologia “de cima”, ou seja, o conhecimento verdadeiro sobre Jesus Cristo, exige do católico, o verdadeiro cristão, que frequente as Sagradas Escrituras com fé, sabendo que elas são inspiradas pelo Espírito Santo e que, portanto, não podem conter erros; que esteja atento ao que os nossos antigos e santos Padres falaram sobre Jesus Cristo; que abra os seus ouvidos para o Magistério da Igreja, necessariamente tradicional. Enfim, o católico sempre deve evitar as novidades e procurar a Tradição, conforme a regra da fé dada por São Vicente de Lerins, no século V: manter aquilo que foi acredito sempre, em todas as partes e por todos (quod semper, quod ubique, quod omnibus); desta maneira, também no que se refere ao conhecimento de Jesus Cristo, o católico manterá a antiguidade, a universalidade e o consenso geral da Igreja (cf. LERINS, Vicente, Commonitório, Regras para conhecer a fé verdadeira, Niterói: Permanência, 2009, p. 17).

