E se a figueira desse maçãs?

Tem gente que, ingenuamente, pensa que as figueiras podem dar maçãs. Não é possível! Figueiras dão figos, macieiras dão maçãs, isto é, progressistas têm atitudes progressistas, tradicionalistas têm atitudes tradicionalistas. Existe, de ambas as partes, uma coerência básica.

O antigo adágio afirma que a lei da oração deve corresponder à lei da fé: lex orandi, lex credendi! Assim foi sempre na Igreja e, por isso, à fé católica firmemente assentada durante séculos corresponde uma Missa perfeitamente acorde à fé dos antigos e santos padres. Assim como a profissão da fé católica foi cada vez melhor esclarecida em meio a tantos embates contra os hereges, e, no meio dos quais, a Igreja afirmou a verdade e condenou os erros, assim também a liturgia foi se desenvolvendo, não sem acertos e equívocos aqui e acolá. Na medida em que ficavam mais claros alguns artigos da fé, em seguida isso se expressava na lei da oração. Um exemplo disso foi quando Berengário de Tours negou a transubstanciação e a presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo no Sacramento da Eucaristia, a Igreja em seguida afirmou ambas as verdades (transubstanciação e presença real) na sua liturgia com um maior número genuflexões no rito da Santa Missa e introduziu a elevação da hóstia e do cálice, após a dupla consagração, para que o povo pudesse adorar Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nos nossos tempos, após o Concílio Vaticano II, vemos que a uma fé nova corresponde uma liturgia nova, pois também, para as autoridades atuais da Igreja Católica, é totalmente inconcebível ter o rito tradicional da Santa Missa como oficial, uma vez que a Missa de sempre não corresponde à nova fé de Vaticano II. Vistas as coisas desde essa perspectiva, eles estão “certos” em não permitir que a peregrinação Summorum Pontificum entre na Basílica de São Pedro, em Roma, e em restringir o tempo para a celebração da Missa na Basílica romana de Santa Maria, já que, para eles, a Missa tradicional não é a Missa ordinária e não corresponde à fé de Vaticano II.

A fé do Concílio Vaticano II está envenenada com os falsos princípios da liberdade religiosa, do ecumenismo, do novo humanismo, da relativização da verdadeira Igreja. O casamento da fé com a revolução produziu filhos bastardos no campo da fé e, consequentemente, produziu uma liturgia bastarda, que é a Missa nova de Paulo VI. Contudo, uma coisa continua muito presente na vida da Igreja: a lei da fé molda a lei da oração. Quem quiser ser fiel ao Vaticano II tem que acolher a Missa nova, pois assim será coerente no que crê e no que reza. Aqueles católicos que não querem acolher os falsos princípios do Concílio Vaticano II, consequentemente não podem rezar com a nova Missa, pois a lei da fé da Igreja Católica não corresponde com a maneira de rezar da Igreja pós-conciliar.

A coerência das autoridades do Vaticano vai mais longe, pois, assim como colocou o Cardeal Víctor Manuel Fernández no Dicastério para a Doutrina da Fé, para que ele possa enunciar fortemente as doutrinas do Vaticano II com todas as suas consequências, deu também o Dicastério para o Culto Divino ao Cardeal Arthur Roche, para que ele possa defender a liturgia nova e atacar a Missa de sempre, inclusive sufocando, o quanto pode, a presença da Missa tradicional na Igreja Católica.

As autoridades do Vaticano também são coerentes ao permitir que muitas pessoas estranhas tenham lugar na Igreja, mas não permitir que os católicos tradicionalistas tenham um posto semelhante. Ou acaso, não entenderam que o fato de que na Igreja “cabem todos, todos, todos” se refere aos “todos” que estão de acordo com as aberturas do Concílio Vaticano II? De fato, já que as doutrinas do Concílio Vaticano II são estranhas, as pessoas também serão moldadas de maneira estranha. Em coerência com isso, os estranhos são muito bem-vindos! Não nos espanta, portanto, que seja acolhida na Basílica de São Pedro uma peregrinação LGBT, mas não seja acolhida uma peregrinação de católicos tradicionais!

Assim como nós católicos tradicionalistas temos as nossas convicções e queremos ser coerentes com elas, os revolucionários também têm suas convicções e querem ser coerentes com elas. Por isso, é preciso dizer, precisamente nesses dias (25 a 27 de outubro de 2026), que se está vivendo na Igreja um novo encontro de Assis, que Roma está nas trevas! Não sabemos quando o Sol da Tradição voltará a iluminar Roma!

Enquanto isso, sigamos a lei dos nossos antigos e santos Padres: a lei da oração católica corresponda à lei da fé católica! A diferença é que nós seguimos essa lei no mesmo sentido dos nossos antepassados (eodem sensu eademque sententia) e, por isso, seguimos o nosso velho Catecismo, na qual a fé católica se encontra intacta em sua profissão, e a Missa tradicional, na qual a fé é integralmente rezada.

Esperar coerência tradicional de autoridades modernistas é como ter a esperança de que uma figueira dê maçã. Normalmente o que Nosso Senhor faz é amaldiçoar a figueira e esperar tempos melhores (Mt 21,18-21). Certamente, em nossos tempos ecológicos, por amaldiçoar a árvore, Jesus teria sido condenado pelas autoridades do Templo, as quais defendem uma ecoteologia coerente com o Concílio Vaticano II.

O Encontro ecumênico e escandaloso de Assis é coerente com os documentos Nostrae Aetate e Unitatis Redintegratio do Concílio Vaticano II; a Missa nova é coerente com a Sacrossanctum Concilium de Vaticano II; Amoris Laetitia que permite a comunhão aos divorciados que vivem em adultério é também coerente com Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II; a relativização da verdadeira Igreja que se vive hoje dentro do catolicismo é coerente com a Lumen Gentium de Vaticano II; a transformação da festa de Cristo Rei num sentimento de reinado de Cristo que não tem mais repercussão na sociedade é coerente com a Dignitatis Humanae, sobre a liberdade religiosa, do mesmo Vaticano II; a nova devoção a Maria é coerente com a ideia de que Maria é quase tão somente uma discípula na Igreja, doutrina esta muito clara na Lumen Gentium do mesmo Concílio Vaticano II.

Por outro lado, a rejeição ao Concílio Vaticano II é coerente com quem quer manter a fé dos antigos e santos Padres da Igreja; rezar somente a Missa tradicional é a coerência basilar que se pede de todo sacerdote que queria permanecer católico; assistir somente a Missa tradicional é o que se exige de qualquer católico que queira guardar íntegra a fé católica; não assinar, no momento, acordos com as atuais autoridades modernistas da Igreja é totalmente coerente com quem sabe que esses acordos exigem aceitar, implícita ou explicitamente, o Concílio Vaticano II e a Missa nova.

Cada lado tem sua coerência básica, pois figueiras dão figos e macieiras dão maçãs. 

O que esperar das atuais autoridades da Igreja Católica? Conversão. Jesus rezou pela conversão de São Pedro e nós podemos rezar pela conversão do Papa: Simão Pedro, “eu roguei por ti, para que a tua fé não falte; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos” (Lc 22,32). Rezemos pelo Papa e pelos Bispos para que se convertam, para que vivam na fé católica dos nossos antigos Padres. Cada conversão é um milagre, mas milagres existem. De nossa parte, também temos muito que ser convertidos por Nosso Senhor, se não em questões de fé, quiçá em questões morais e de piedade, pois sempre podemos deixar os nossos pecados, ser cada vez mais santos e cada vez mais piedosos.

Pe. Françoá Costa,
26 de outubro de 2026,
Na festa de Santo Evaristo, Papa e Mártir.

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