Meus queridos fiéis, este domingo tem um tom especial, uma particularidade, por assim dizer, por algo que aconteceu em Roma e que provocou uma reação da nossa Casa Geral e do superior geral. Por isso, ele nos pediu para realizarmos hoje um ato de reparação. Permitam-me, primeiro, ler para vocês esta declaração.
“No dia 4 de novembro, o Dicastério para a Doutrina da Fé emitiu uma nota doutrinal sobre alguns títulos marianos relacionados à cooperação de Maria na obra da salvação. Esse texto, cuja aparente preocupação é não ‘obscurecer a única mediação salvífica de Cristo, ensina que ‘é sempre inadequado usar o título de corredentora para definir a cooperação de Maria’, e que ‘é necessária uma prudência especial ao aplicar o termo Medianeira a Maria’. Caricaturando – com o intuito de se afastar da terminologia tradicional da Igreja – e, além disso, tornando prolixo com belas considerações o papel maternal da Virgem, essa ‘Nota’ busca minimizar o papel confiado por Deus à Sua associada na obra da Redenção e na salvação das almas. Por um lado, afirma que a Santíssima Virgem Maria não interveio na obtenção da graça; por outro lado, seu papel universal e necessário na distribuição das graças é diminuído quase a ponto de ser negado. Ela é reconhecida apenas com uma função indefinida de intercessão maternal.
Com suas advertências enganadoras, o Dicastério para a Doutrina da Fé ‘obscurece’ a singularidade da colaboração de Nossa Senhora na obra da salvação. Isso destrona a Virgem Maria e ofende a sabedoria divina. Por fim, escandaliza todos os cristãos, os quais ficam profundamente feridos por esse grave ataque à grandeza da mãe deles e consternados ao ver a missão dela, dentro de suas almas, tão deliberadamente limitada.
Profundamente indignados e desejosos de reparar publicamente tal ofensa, os padres da Fraternidade Sacerdotal São Pio X convidam todos os sacerdotes amigos e os fiéis a se juntarem a eles em oração no domingo, dia 16 de novembro, que é hoje. Em toda missa pública celebrada nesse dia, será acrescentada uma intenção de reparação pela ofensa e escândalo cometidos. Após cada missa, será cantada ou recitada a ladainha da Santíssima Virgem e o Stabat Mater. Que a Virgem Corredentora, por sua poderosa intercessão, dissipe a escuridão presente e reacenda a fé de seus pequenos filhos. Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem.”
Menzigen, datado de 11 de novembro de 2025.
Então, meus queridos irmãos, caros seminaristas, permitam-me fazer um curto comentário sobre o que está acontecendo, lembrando as verdades básicas fundamentais da nossa fé. Primeiro, evidentemente, somente Deus, mais precisamente Seu Filho feito carne, Nosso Senhor Jesus Cristo – é quem nos salva; Ele é o único que nos redimiu. Assumindo a natureza humana, Ele sofreu, morreu e, por isso, pagou pelos nossos pecados, conseguiu a reconciliação com Deus e mereceu para nós todas as graças de que precisamos para sermos salvos. Não existe outro nome, debaixo do céu, pelo qual alguém possa ser salvo (At 4,12). Esse é o fundamento de toda a nossa religião.
Mas há um outro nome que é bem interessante e que os protestantes rejeitam totalmente depois de dizerem e afirmarem que, de fato, só Deus pode produzir estes elementos essenciais para sermos salvos, que são a fé e a graça. Nosso Senhor falou assim: quem crer e for batizado será salvo (Mt 16,16). Quando falamos de batismo, estamos falando da comunicação da graça santificante; e, de crer, estamos falando da fé.
Existe um termo para descrever essa realidade da ordem sobrenatural da graça e da fé: é a palavra sobrenatural. Sobrenatural, o que é além da natureza e além de qualquer capacidade da natureza criada; primeiro, a natureza humana, mas inclusive, qualquer criatura. Isso significa e é o que a Igreja ensina: somente Deus pode produzir e infundir na nossa alma todos esses elementos chamados sobrenaturais. Elementos esses tão elevados e tão próximos de Deus, que absolutamente nenhuma criatura pode produzi-los, mas somente o próprio Deus. Você tem a fé que Deus colocou na sua alma, a chamada ‘virtude da fé’. Isso vale para qualquer virtude. Ele infundiu na sua alma a graça santificante, uma participação real e formal na natureza e na vida divina. Somente Deus pode produzir e infundir a graça.
Santo Tomás diz que todo sacramento se consuma num contato real com uma Pessoa divina; por isso, toda vez que recebemos um sacramento, entramos em contato real com Deus. É uma verdade tão consoladora, meus queridos irmãos. Somente Deus é capaz de realizar isso, por isso Ele age. Mas, ao mesmo tempo, isso também é totalmente óbvio quando falamos dos sacramentos e da Igreja. Observem o batismo, a primeira pergunta é: “O que você pede à Igreja?” E a resposta é: “a fé”. “O que a fé lhe dá? ‘A vida eterna’”. Então é a fé que nos dá isso, e é a Igreja que nos dá a fé. E chegamos até a dizer que fora da Igreja Católica não há salvação, muito claro; o que também significa afirmar a intervenção da Igreja, a Santa Mãe Igreja, na obra da salvação. O que isso quer dizer? Trata-se de um princípio fundamental da economia da salvação, ao mesmo tempo profundamente admirável.
Deus, que é o único que produz a graça, chamou as criaturas para cooperar nessa obra de Redenção, qualquer tipo de criatura. Se vocês olharem para os sacramentos, Ele usa objetos simples, criaturas simples: água, óleo, pão, vinho; coisas da terra, meras criaturas. Mas Ele vai além ao usar seres humanos, seres livres. Nós iremos chamá-los de ministros do sacramento. De que modo se realiza essa cooperação?
Há uma expressão que usamos: a palavra “instrumento”. O instrumento tem sua própria operação, todavia é sublimado; é elevado por uma causa maior que o usará para produzir o efeito através do uso correto do instrumento. Entretanto, o efeito real passa por esse instrumento que é o próprio Deus.
Decerto, a preciosa humanidade de Nosso Senhor, sendo também uma criatura, é o instrumento mais elevado de todos: Nosso Senhor é realmente homem. Ele tem um corpo real, uma alma real, igual a nós, idênticos, mas assumidos por uma pessoa divina. E chamaremos esse instrumento de instrumentum coniunctum, unido. A mão é um instrumento unido a mim, inseparável de mim, a qual não consigo separar– e é melhor que eu não tente. Já a caneta, pelo contrário, é um instrumento que, claramente, é separável. E assim dizemos que a humanidade mais preciosa de Nosso Senhor é um instrumento coniunctum da graça. O que isso significa? Significa que Deus quis que a plenitude da graça residisse nessa humanidade. Isso quer dizer que todas as graças, toda a santidade que recebemos, nós a recebemos através da humanidade mais preciosa de Nosso Senhor. Não dizemos que a humanidade produz a graça, mas que ela é o instrumento que nos traz a graça.
Os sacramentos – além da santa comunhão, na qual temos o próprio Senhor – também são instrumentos (poderíamos dizer de um grau menor), mas essa instrumentalidade se estende a toda a Igreja, ou seja, a todos os santos. Deus quer que os seres humanos cooperem para a própria salvação e para a salvação dos outros. Por isso, poderemos dizer que fora da Igreja não há salvação; e é por isso que Nosso Senhor dirá aos apóstolos: ide a todas as nações e ensinai (Mt 28,19-20). Vejam que é uma ação humana, mas claro que elevada pela graça, elevada por Aquele que diz: “Sem Mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5).
Um instrumento não pode produzir esse efeito sem a ação da causa principal, se a causa real não estiver agindo, que é o próprio Senhor. Isso vale para qualquer criatura e isso é absoluto. Contudo, até onde pode chegar essa cooperação, essa instrumentalidade? Veremos isso. Ouviremos desde o começo, depois do primeiro pecado. O que Deus diz para a serpente, para o diabo? Ele anuncia uma mulher e diz que essa mulher esmagará a cabeça dele (Gn 3,15). Não estamos falando somente de esmagar uma cobra na terra, estamos falando da luta mais importante e decisiva para ser salvo. O pecado original fechou os portões do Céu. Há uma luta. “Porei inimizades entre ti e a mulher, e entre a tua posteridade e a posteridade dela. Ela te pisará a cabeça e tu armarás traições ao seu calcanhar”. Há uma luta entre Nosso Senhor, a Bem-aventurada Virgem Maria e a Igreja, por um lado; e o mundo e o diabo, por outro.
Trata-se de salvar almas. A Santíssima Virgem Maria, a criatura, recebe uma missão. E ao receber essa missão, ela recebeu o poder de esmagar o diabo, o inimigo universal da humanidade. Ela é apresentada muito claramente pelo próprio Deus como salvadora. Claro, repetimos e mantemos que: só existe um Salvador, Nosso Senhor; todavia, pela vontade de Deus, somos cooperadores na salvação. E a número um, a primeira de todas, será aquela que Deus escolheu como Sua mãe.
Essa cooperação é uma cooperação livre. E é por essa razão que o anjo anuncia o plano de Deus para Maria, mas antes de realizá-lo, ele espera o sim, o fiat; Maria diz “sim”. O que teria acontecido se ela tivesse dito “não”? Nada teria acontecido. Desse sim depende toda a salvação de toda a humanidade; é dessa forma que esse sim é importante e decisivo. E, apenas por isso, vocês conseguem entender a importância que Deus quer dar à Sua mãe na obra da Redenção. É devido a isso que, sendo mãe, ela dá a Nosso Senhor a Sua humanidade. São Pio X é quem citará São Luís Maria Grignion de Montfort usando esta expressão de que ela dá o corpo físico a Nosso Senhor, mas por ser mãe de Jesus – a palavra não é usada automaticamente, mas está ali, é uma consequência normal -, ela será a mãe do corpo místico e, portanto, é perfeitamente correto dizer que Maria é mãe da Igreja. Também é correto dizer que ela é mãe da graça.
Observem uma mãe: ela dá a vida. Não podemos dizer que ela produz a vida, mas que ela dá. Esta é a palavra que geralmente todo mundo usa: ela transmite a vida; consequentemente Maria, mãe da graça, transmite a graça que ela recebeu. E essa palavra, que é usada há tanto tempo, estava prestes a virar um dogma. No Concílio Vaticano II vários bispos pediram esse dogma, já que ela é medianeira de todas as graças. Porém, por causa do ecumenismo, isso foi rejeitado, e voltaram a falar só como mãe da Igreja. Foi por pouco.
Isso significa que é uma crença comum e aceita na Igreja Católica que Maria é a medianeira de todas as graças. Como assim? São Bernardo, na Idade Média, já usava essa imagem. São Bernardino continuará com essa ideia, e muitos outros, falando do corpo místico de Cristo, perguntam: que tipo de órgão ou parte do organismo Maria pode ser nesse corpo místico? E todos dizem que ela é o pescoço. Ora, se vocês olharem para o pescoço, ele é o ponto obrigatório de passagem entre a cabeça e o resto do corpo: a cabeça é Nosso Senhor; pelo pescoço passa absolutamente tudo, de ambos lados, até em ambas direções. Toda ordem da cabeça, todo o bem que vem da cabeça passa pelo pescoço. Embora a imagem não seja metaforicamente elegante, exprime com precisão esse papel necessário, não por si só, mas pela vontade de Deus, da Santíssima Virgem Maria. Santo Tomás disse assim: Deus, para vir até nós, escolheu Maria; esse é o caminho. E nos convida a voltar para Deus, usando o mesmo caminho: através de Maria.
A ideia de corredenção, ademais, é só uma consequência dessa cooperação. Vemos isso aos pés da cruz. São Pio X, na sua encíclica sobre a Bem-Aventurada Virgem Maria, insiste nisso, descrevendo com palavras bem fortes, e, mesmo que ele não use diretamente o termo corredentora, o significado está ali. O que Nosso Senhor de condigno, com justiça estrita, mereceu na cruz, Maria o mereceu de congruo. De congruo é um termo técnico específico que não diz que é de justiça direta, não é justiça estrita: é um degrau abaixo. Por exemplo, uma promessa. Eu prometo algo e sou obrigado a cumprir. Recebemos a graça; não temos absolutamente nenhum direito a ela. Nós a recebemos somente pela bondade de Deus. Entretanto, uma vez que eu tenho essa graça, eu sou capaz de merecê-la. Sou capaz de merecer até um aumento da graça; sou capaz de merecer a salvação, o Céu: é um puro presente de Deus. Deus quer que eu trabalhe nisso a fim de aumentá-la para mim e para os outros. Isso é o que chamamos de comunhão dos santos.
Percebam, meus queridos irmãos, que toda vez que fazem uma boa ação, um bom trabalho, o mérito que vocês têm aí beneficiará todas as almas em estado de graça na Igreja, e na medida da caridade que cada uma tem. Quanto mais caridade um santo tem, mais ele se beneficia de todas as boas ações feitas em toda a Igreja. Esta é a comunhão dos santos: é um dogma, é uma doutrina da Igreja. Portanto, temos que trabalhar pela nossa salvação e pela salvação dos outros. Na crisma, falaremos do soldado de Cristo. Trata-se disso, trata-se dessa luta, trata-se da defesa da fé e de ganhar almas. Dado esse propósito, dada essa missão à Santíssima Virgem Maria, faz sentido que Deus, Nosso Senhor na cruz, quisesse associá-la ao mérito, como dizemos, de congruo, o suficiente, para que todos nós sejamos salvos.
Mais uma vez, somente somos salvos graças a Nosso Senhor, todavia, Nosso Senhor queria essa cooperação em todos os níveis e, acima de tudo, com a Santíssima Virgem Maria. Hoje em dia existe uma intervenção do Céu muito interessante, muito interessante mesmo, e não está diretamente ligada à questão da corredenção, porém mostra como Deus se importa que demos atenção a Bem-aventurada Virgem Maria: são certas palavras que foram dadas pela Santíssima Virgem em Fátima. Ora, essas palavras, essas mensagens foram analisadas pela Igreja, e a Igreja nunca vai dizer que é realmente a Santíssima Virgem. A Igreja dirá que não tem nada contra a fé nessas palavras. Então, o que Maria disse? O fundamento diz que toda essa história de Fátima ainda não acabou. O que ela falou? Ela disse que o Filho dela queria apresentar ao mundo a devoção ao seu Imaculado Coração. É uma intervenção do Céu a fim de mostrar o que Deus quer. Ele quer, para este tempo em que vivemos, que essa devoção ao Imaculado Coração de Maria aumente.
O primeiro ponto das consequências é indicado pela própria Santíssima Virgem. Aqueles que viverem essa devoção, por meio dessa devoção, serão salvos. A salvação é prometida como resultado para quem vive a devoção ao Imaculado Coração de Maria. Maria nunca disse que é Deus. Nunca dissemos isso. Mas ela disse que, pela decisão de Deus, pela vontade de Deus, se você viver essa devoção, se se voltar para a Virgem Maria, vivendo essa devoção, pode ter certeza: você será salvo.
É a vontade de Deus, Deus pode fazer o que quiser. E Ele quer que honremos e veneremos de um jeito bem especial a Sua mãe, e, mais tarde, digamos algumas décadas depois, os cinco sábados em reparação pelos pecados contra Maria, não contra Deus. E, de novo, promete que na hora da nossa morte irá dar-nos todos os meios, todas as graças de que precisamos para sermos salvos. Novamente, Deus nos diz: “Cuidem de minha mãe”. Ela pode até ser uma criatura, sim, ela é, mas é Minha mãe. Reparem, reparem todas essas ofensas que são feitas na Terra, e Eu lhes prometo: vocês receberão todas as graças de que necessitam para serem salvos. Pensem nisso. Este é o nosso tempo.
Olhem o que estão fazendo agora em Roma: tentam apagar, eliminar o que chamam de uma espécie de devoção meio atrasada à Santíssima Virgem Maria. Dizem que isso pode ofuscar a devoção a Nosso Senhor. Tal raciocínio é inaceitável! Essa é uma mentalidade protestante, contrária à doutrina e à Tradição da Igreja Católica. E é por isso que, certamente, queremos protestar a Deus: Não! Nós queremos que a Sua mãe seja honrada. Vós quereis que passemos por ela, e é isso que vamos fazer; portanto, queremos mesmo reparar essas ofensas. Que Deus tenha misericórdia de nós. Que isso ajude a nossa salvação e a de muitas outras almas. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Bernard Fellay, Bispo Católico, FSSPX
16/11/2025

