Assim como São Luís Grignion de Montfort falou-nos tão bem da verdadeira devoção à Santíssima Virgem Maria, inclusive deixando-nos um belo livro com esse título, ouso também falar que existe a verdadeira devoção à Misericórdia Divina, que é a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Nesses tempos de confusão, é muito importante que estejamos sempre atentos ao que é verdadeiro, inclusive no que se refere às devoções.
O fundamento principal da devoção ao Sagrado Coração de Jesus se encontra em Jo 19,34: “Um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água”. É nesse Coração divino aberto onde encontramos o nosso refúgio, a nossa confiança em Deus e a nossa esperança de salvação. Foi o Papa Pio IX que, em 1856, instituiu para toda a Igreja a festa do Sagrado Coração de Jesus, mas o amor que a Igreja tem ao Coração do seu Divino Esposo consta de séculos.
Já no século XII, os Monges Cistercienses cultivaram a devoção ao Coração de Jesus, ao se devotarem às feridas de Nosso Senhor Jesus Cristo em sua Paixão. São Bernardo de Claraval, no século XII, já falava da bondade do Coração de Jesus por nós.
São Boaventura, no século XIII, já exclamava: “O quam bonum et iucundum habitare in Corde Iesu!” (Ó quão bom e delicioso é habitar no Coração de Jesus!). Parece que o santo doutor já profetizava quem seria sua mensageira séculos depois, quando afirma: “Pretiosa margarita Cor tuum, optime Iesu!” (Boníssimo Jesus, o teu coração é uma preciosa margarida!). De fato, Santa Margarida seria a confidente do Coração de Jesus no século XVIII. A Igreja guardou esses textos de São Boaventura nas lições do III Noturno das Matinas do Ofício do Sagrado Coração de Jesus.
Apesar de tudo o que dissemos, é preciso ver a devoção ao Sagrado Coração de Jesus florescendo mais fortemente em torno da chamada Escola Francesa de Espiritualidade. A França do século XVI pulava no mundanismo, que levava à relaxação dos costumes (laxismo), ao rigorismo da seita jansenista, que levava as pessoas ao desespero da própria salvação.
Neste contexto, Deus suscitou, na França, um sacerdote piedoso chamado Pierre de Bérulle (1575-1629), que é considerado o fundador da Escola Francesa de Espiritualidade. Homem piedoso, que havia sido educado pelos jesuítas, escreveu em 1597 o “Breve discurso da abnegação interior”, levou as Carmelitas de Santa Teresa para a França em 1604 e reuniu muitos eclesiásticos fervorosos que buscavam a santidade, como São Francisco de Sales, São Vicente de Paulo, o Pe. Jean-Jacques Olier (fundador dos Sulpicianos) e São João Eudes. O Padre Pierre de la Bérulle movimentou tanto a França de seu tempo, suscitando grandes santos que o Papa Urbano VIII o chamou de “Apóstolo do Verbo encarnado”.
Um dos discípulos do Padre de Bérulle foi São João Eudes (1601-1680), um grande sacerdote e fervoroso pregador, que convertia multidões nas missões que fazia. Diante do rigorismo jansenista, que levava as pessoas ao desespero da própria salvação, o Pe. João Eudes pregava a bondade de Deus no Coração de Jesus. Sem dúvida, este santo foi o primeiro teólogo que tratou a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, a tal ponto que compôs a Missa e o Ofício que temos até os nossos dias. O Papa Leão XIII disse que São João Eudes é “o autor do culto litúrgico aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria”. Em 1643, São João Eudes fundou a Congregação de Jesus e Maria, para formar sacerdotes e fomentar as missões, e o Refúgio de Nossa Senhora da Caridade, para ajudar as mulheres em situação de risco.
São João Eudes morreu em 1680 depois de trabalhar muito pelo triunfo do Coração Sacratíssimo de Jesus. Porém, Deus preparava, quase ao mesmo tempo, uma mensageira sua, também na França.
Santa Margarida Maria nasceu em 1647 e, aos 4 anos de idade, fez voto de castidade perpétua. Aos 8 anos, sofreu uma enfermidade que a deixou sem poder andar; diante dessa tribulação rezou ao Senhor dizendo-lhe que se ficasse curada se faria religiosa. A cura aconteceu, mas sua família quis casá-la quando ela completou 17 anos. Nesse período ela viveu uma luta interior entre entregar-se a Deus totalmente na vida religiosa ou casar-se. A graça venceu e, aos 24 anos, ela entrou na vida religiosa, no Mosteiro da Ordem da Visitação, que fora fundada por São Francisco de Sales e Santa Joana de Chantal, em Paray-le-Monial, a cidade do Sagrado Coração de Jesus.
A partir do dia 27 de dezembro de 1673, Santa Margarida Maria começou a ter as visões-revelações de Jesus mostrando-lhe o seu Sagrado Coração. As primeiras palavras que Jesus dirigiu à sua mensageira foram estas: “O meu Coração está tão apaixonado de amor pelos homens que, já não podendo conter dentro de si as chamas da sua ardente caridade, vê-se obrigado a expandi-las por teu intermédio e a manifestar-se, a fim de enriquecê-los dos seus preciosos tesouros e das graças de que necessitam, para evitarem a eterna condenação”.
O diretor espiritual de Santa Margarida foi o jesuíta São Cláudio de la Colombière, que a entendeu perfeitamente por uma graça de Deus e muito ajudou a difundir a devoção ao Sagrado Coração de Jesus. As monjas dos mosteiros da Ordem da Visitação, paulatinamente, foram sendo feitas grandes devotas e propagadoras do culto ao Sagrado Coração de Jesus. Por sua vez, Jesus não parava de agraciar a sua mensageira, Santa Margarida Maria, inclusive dando-lhe promessas maravilhosas para os devotos do seu adorável Coração, a 12ª Promessa é a que mais nos encanta: “No extremo da misericórdia do meu Coração onipotente, concederei a todos aqueles que comungarem às primeiras sextas-feiras de cada mês, durante 9 meses consecutivos, a graça do arrependimento final; pelo que não morrerão sem a minha graça e sem receber os santos sacramentos. O meu Coração naquela hora extrema lhes será seguro abrigo”.
Jesus também pediu a Santa Margarida que fossem feitos escudos com o seu Coração, o chamado “Detém-te”: são pequenas imagens do Sagrado Coração de Jesus, com a frase: “Detém-te! O Coração de Jesus está comigo!”. Em 1720, durante a peste que estava arrasando Marselha, França, foram distribuídos vários Detém-te: a peste acabou! m 1870, uma mãe sabendo que seu filho fora chamado à guerra, costurou um Detém-te na roupa do filho e o consagrou ao Sagrado Coração de Jesus; durante a guerra uma bala o atingiu, mas ficou detida, inexplicavelmente, no escudo-emblema do Sagrado Coração de Jesus, sem fazer-lhe mal algum. Depois que o Papa Pio IX, o mesmo que instituira a festa do Sagrado Coração de Jesus na Santa Igreja, soube disso declarou: “Isto é uma inspiração do céu. Abençoo este Coração e quero que todos aqueles que forem feitos segundo este modelo recebam esta mesma bênção, sem ser necessário que um padre a renove. Além disso, quero que de modo algum Satanás possa causar dano àqueles que trouxerem consigo o Escudo, símbolo do Coração adorável de Jesus”.
Resta-nos dizer que esta é a verdadeira devoção à Misericórdia Divina, a tal ponto que não confiamos muito na atual devoção propagada pela “Igreja Conciliar” através da Ir. Faustina Kowalska. De fato, a nova devoção à misericórdia, sem doutrina católica sólida, cheia de devocionismo e sem um ponto real de reparação para satisfazer a justiça divina, parece também estar na raíz da nova consideração da misericórdia divina. Segundo esta nova teologia da misericórdia divina, Jesus é tão bom, mas tão bom, que sua justiça fica eclipsada e as pessoas parecem poder pecar à vontade porque a sua misericórdia, no fundo, nem se importa com esses pecados e levará a todos para o céu. Pelo menos desde o pontificado de João Paulo II parece que o céu de Roma escurece cada vez mais com doutrinas que não são católicas e com uma misericórdia que não leva em conta a moral católica em toda a sua grandeza.
Neste contexto, é importante recordar a todos que façam em suas casas a entronização do Sagrado Coração de Jesus em seus lares. O belo quadro do Sagrado Coração de Jesus foi pintado ainda em vida de Santa Margarida Maria e foi difundido primeiramente nos mosteiros da Ordem da Visitação, à qual pertencia Santa Margarida Maria e depois, foi para outros lugares até espalhar-se pelo mundo inteiro. O coração exposto de Nosso Senhor é expressão de seu amor intenso pelos seres humanos; a coroa de espinhos que envolve o coração significa a indiferença, os pecados e os sofrimentos que os homens causam ao não corresponderem ao amor de Nosso Senhor Jesus Cristo; Jesus insiste em salvar-nos e isso fica bem manifesto através do raio de luz que sai do seu Coração dirigido a nós; a túnica de Nosso Senhor é símbolo de sua divindade puríssima e o manto vermelho símbolo de sua humanidade generosíssima; seus olhos fixos e sua mão estendida são convites para que nos aproximemos do seu amor, pois ele nos abençoará.
Juntamente com a entronização do Sagrado Coração de Jesus, coloquemos ao seu lado o Coração Imaculado de Maria, pois esses dois corações fundem-se no amor mais elevado.
Sacratíssimo Coração de Jesus, tenha misericórdia de nós!
Imaculado Coração de Maria, sede a nossa salvação!
Viva os Corações de Jesus e de Maria!
Pe. Françoá Costa
Brasília, DF, 12 de junho de 2026
Festa do Sagrado Coração de Jesus

