Vou começar por expôr a tese principal que gostaria de defender neste artigo: em lugar de um novo documento que permita, com total liberdade, a Missa tradicional na Igreja Católica, o melhor é que o Papa retorne para a “Bula Quo Primum Tempore”, a qual nunca foi revogada nem pode ser revogada por causa da própria tradição católica.
Efetivamente, causa muita confusão na mente do fiel católico saber que o Papa Bento XVI escreveu o Motu Proprio Summorum Pontificum, em 2007, permitindo amplamente a Missa tradicional, e, logo depois, em 2021, o Papa Francisco escreveu a Carta Apostólica Traditionis Custodes, restringindo esmagadoramente a Santa Missa tradicional. Afinal, quem está certo Bento XVI ou Francisco? Neste contexto, é preciso dizer que o texto áureo do Papa São Pio V continua inalterável. Por isso, temos a audácia de propor, humildemente, ao Santo Padre, o Papa atual, que não escreva um novo documento permitindo a Missa tradicional, mas apenas recorde à toda a Igreja sobre a validez perpétua da Bula Quo Primum Tempore de 1570.
Doutrina Católica sobre a Missa
De fato, a Missa é a oração ritual e eficaz da Igreja Católica que torna presente o sacrifício de Jesus Cristo na Cruz. Observe bem, não se trata de um novo sacrifício, mas o mesmo sacrifício da Cruz tornado presente nos nossos altares de maneira sacramental. A Santa Missa é, portanto, o Sacrifício Eucarístico que atualiza e perpetua o único Sacrifício da Cruz. A Missa e a Cruz são essencialmente a mesma realidade, com a diferença de que na Missa o sacrifício, que é a entrega de Jesus Cristo ao Pai, acontece sem derramamento de sangue (sacrifício incruento), enquanto que na Cruz o sacrifício aconteceu através da efusão do sangue preciosíssimo do Salvador (sacrifício cruento).
O Apóstolo São Paulo disse, categoricamente, que a Missa é verdadeiro e próprio sacrifício: “Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor, até que ele venha” (1 Cor 11,26). Observe que neste texto, o Apóstolo fala apenas da morte do Senhor, não fala do “mistério pascal”. “Sacrum facere” está na raíz de “sacrifício”, que significa um “fazer sagrado”, isto é, no santo sacrifício da Missa se oferece ao Pai o seu próprio Filho Jesus Cristo.
São João Batista asseverou: Jesus é o Cordeiro de Deus, aquele que foi levado ao altar da Cruz e aceitou, sendo o Filho único de Deus, ser sacrificado no Monte Calvário em resgate e para a salvação de todos nós, os únicos culpados. Estávamos perdidos, mas graças ao sacrifício, isto é, à oferta que o Filho Jesus Cristo fez ao seu Pai, fomos salvos.
O Concílio de Trento, no século XVI, resumiu de maneira admirável a doutrina católica sobre o sacrifício eucarístico ou Santa Missa nos seguintes pontos:
1º) nela, na santa missa, se oferece a Deus um verdadeiro e próprio sacrifício;
2º) para celebrar a Eucaristia (ou Santa Missa) Cristo instituiu os Apóstolos como verdadeiros sacerdotes do Novo Testamento através daquelas palavras que o Senhor lhes disse: “fazei isso em memória de mim” (Lc 22,19);
3º) a santa missa é um sacrifício de propiciação, de adoração, de louvor e de ação de graças. Ela é oferecida pelos vivos e pelos defuntos e por outras necessidades;
4º) oferecer a Deus o sacrifício da Santa Missa não é menosprezo do sacrifício da Cruz, já que são essencialmente o mesmo sacrifício (isto é, o de Cristo na cruz), diferenciando-se tão somente no modo como são oferecidos.
Desde o começo, a Igreja entendeu que aquilo que Jesus instituiu na quinta-feira santa foi o sacrifício do seu corpo e do seu sangue, porém de maneira antecipada, já que o sacrifício cruento se daria na sexta-feira santa. Ora, se Jesus tem o poder de antecipar o sacrifício no oferecimento da hóstia e do cálice, certamente tem o poder de perpetuar o mesmo sacrifício pelos séculos.
Como a Missa é verdadeiro e próprio sacrifício, a Igreja, graças à ação do Espírito Santo, foi protegendo essa realidade de fé católica com ritos inequívocos. Já no século V, temos o testemunho de São Leão Magno de que o rito da Missa já era substancialmente o que nós celebramos atualmente na Missa tradicional ou tridentina. Em São Gregório Magno encontramos esse testemunho de maneira ainda mais clara. Certamente, esses Santos Padre e Papas dos séculos V e VI nada mais fazem do que testemunhar a Missa dos Apóstolos, o que nós chamamos de “a Missa de sempre”. Finalmente, no século XVI, a Missa foi canonizada, em 1570, no chamado Missal de São Pio V ou Missal tridentino. De lá para cá, as pequenas modificações feitas aqui e acolá por algum Papa não introduziram nada substancialmente novo no Rito da Missa, nem retiraram dela algo que deveria permanecer.
Desta forma, o Rito Romano, sempre o mesmo, permanece por séculos na Igreja Católica. Indubitavelmente, a Missa tradicional expressa mais que todos os ritos, inclusive mais do que os veneráveis ritos orientais antigos, a doutrina sobre o sacrifício eucarístico tanto nas palavras quanto nos gestos. Tal afirmação encontra justificação no fato de que o Rito Romano Tradicional foi o único cujo desenvolvimento orgânico se deu à sombra dos Sucessores do Apóstolo Pedro, o único que recebeu as chaves da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo e no qual habita o carisma da infalibilidade. A função petrina, através dos diversos Papas que testemunharam e transmitiram a Tradição Apostólica, é, pois, garantia de uma Missa sem erros nem nas palavras nem nos gestos.
O que acontece, porém, se o venerável e católico Rito Romano Tradicional é modificado?
Alcuin Reid, em seu livro “O desenvolvimento orgânico da liturgia” afirmava, sensatamente, que um princípio constantemente defendido na Igreja é o respeito pela sua tradição litúrgica, porém sem fechar-se num imobilismo: “não há dúvida de que o desenvolvimento orgânico inclui a introdução de algumas práticas novas: uma postura imobilista no que diz respeito às reformas litúrgicas é simplesmente a-histórica (…). O fato crucial em relação a essas introduções, como disse Capelle, é sua consonância com a tradição. Também se pode prosseguir no sentido de que uma proporção adequada é um critério importante ao introduzir ritos – novos ou restaurados – no organismo que é a liturgia, uma vez que uma introdução desproporcional iria desordenar o equilíbrio do rito enquanto um todo e fazer com que ele fosse substancialmente um novo rito” (Alcuin REID, O desenvolvimento orgânico da liturgia, São Paulo: Lignum Vitae, 2023, p. 242).
Por isso, o chamado “Novus Ordo Missae” ou “Missa de Paulo VI”, conforme o Missal de 1969, em uso na maioria das paróquias da Igreja Católica, causou espanto entre os católicos, porque, como disse os Cardeais Ottaviani e Bacci, “o Novus Ordo Missae – considerando-se os novos elementos amplamente suscetíveis a muitas interpretações diferentes que estão nela implícitos ou são tomados como certos – representa, tanto em seu todo como nos detalhes, um surpreendente afastamento da teologia católica da Missa tal qual formulada na sessão 22 do Concílio de Trento” (Alfredo Cardeal Ottaviani, Antonio Cardeal Bacci, Carta ao Papa Paulo VI, 25/09/1969, 1).
Devido aos vários defeitos da chamada “Missa nova”, os católicos que querem conservar íntegra a sua fé devem se afastar desse rito novo, que é bastardo, como dizia Dom Marcel Lefebvre, porque o rito da Missa nova é o casamento de elementos católicos com os elementos da revolução; o fruto só poderia ser um filho bastardo.
Como assim? Vamos ler mais uma vez os cardeais Ottaviani e Bacci quanto ao ofertório da Missa: “O Novus Ordo altera a natureza do ofertório sacrificial transformando-o em uma espécie de troca de oferendas entre o homem e Deus. O homem traz o pão e Deus o transforma no “pão da vida”; o homem traz o vinho e Deus o transforma na “bebida espiritual”: Bendito sejais, Senhor Deus de toda a criação, pois através de vossa bondade nós temos este pão (vinho) para oferecer, fruto da terra (videira) e trabalho de mãos humanas, Ele se tornará para nós o pão da vida (bebida espiritual). As expressões “pão da vida” e “bebida espiritual”, são, é claro, completamente vagas e podem significar qualquer coisa. Novamente nós nos deparamos com o mesmo equívoco básico: De acordo com a nova definição da Missa, Cristo está presente entre os seus apenas espiritualmente; aqui, o pão e o vinho são apenas espiritualmente – e não substancialmente – modificados. Na Preparação das Oferendas um jogo similar de equívocos foi cometido” (Alfredo Cardeal Ottaviani, Antonio Cardeal Bacci, Breve Exame Crítico do Novus Ordo Missae, 1969, p. 11-12).
Pode-se perceber que, na verdade, não existia apenas um Arcebispo Bugnini na confecção da liturgia da reforma litúrgica que nós temos hoje, mas “vários Bugnini”. Por exemplo na conferência de Maria Laach, de 1951, reuniram-se 48 estudiosos que fizeram pedidos muito ousados à Santa Sé. Quais? A supressão das orações ao pé do Altar e do último Evangelho da Missa, uma nova análise das leituras da Missa e a reforma do Cânon da Missa. Na conferência do Monte Santo, de 1952, também com muitos estudiosos, pediu-se que a supressão da doxologia, dos sinais da cruz, das genuflexões; além do mais, pediu-se uma fórmula menor para distribuição da comunhão, que seria apenas “o Corpo de Cristo” e não mais “O Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo guarde a tua alma para a vida eterna. Amém”. E estas são precisamente as mudanças que temos hoje na liturgia (cf. Alcuin REID, O desenvolvimento orgânico da liturgia, São Paulo: Lignum Vitae, 2023, p. 252-268).
Devido a todas essas questões, nós, católicos que não queremos que a nossa fé seja diminuída, não vamos mais à Missa nova e ficamos com a “Missa de sempre” ou “Missa tradicional” ou “Missa tridentina”, já que “a Nova Ordenação da Missa não possui a intenção de apresentar a fé ensinada pelo Concílio de Trento. Mas é a esta fé que a consciência católica está para sempre ligada. Desta forma, com a promulgação da Nova Ordenação da Missa, a verdadeira fé católica depara-se com a trágica necessidade de fazer uma escolha” (Alfredo Cardeal Ottaviani, Antonio Cardeal Bacci, Breve Exame Crítico do Novus Ordo Missae, 1969, p. 26).
Postos a fazer esta escolha, ficamos com a Missa tradicional, aquela que deve ser sempre celebrada, que nunca foi nem pode ser proibida. De fato, disse o Papa São Pio V em 1570: “em virtude de Nossa Autoridade Apostólica, pelo teor da presente Bula, concedemos e damos o indulto seguinte: que, doravante, para cantar ou rezar a Missa em qualquer Igreja, se possa, sem restrição seguir este Missal com permissão e poder de usá-lo livre e licitamente, sem nenhum escrúpulo de consciência e sem que se possa incorrer em nenhuma pena, sentença e censura, e isto para sempre”. Disse ainda o mesmo Papa: “Assim, portanto, que a ninguém absolutamente seja permitido infringir ou, por temerária audácia, se opor à presente disposição de nossa permissão, estatuto, ordenação, mandato, preceito, concessão, indulto, declaração, vontade, decreto e proibição. Se alguém, contudo, tiver a audácia de atentar contra estas disposições, saiba que incorrerá na indignação de Deus Todo-poderoso e de seus bem aventurados Apóstolos Pedro e Paulo” (São Pio V, Bula Quo Primum Tempore, n. 8. 14).
Não é sensato que o Papa atual apenas retorne a este documento tão claro do Papa São Pio V? Não precisamos de um novo documento, mas somente que o Santo Padre nos confirme na fé (cf. Lc 22,32).
Conselhos práticos para os fiéis que estão chegando à Missa de sempre
Feita esta “opção” pela Missa de sempre, há que ter em conta que a maioria dos católicos, quando têm acesso à Missa tradicional, não estão mais acostumados à língua latina nem ao fato do sacerdote encontrar-se diante deles sem virar-lhes o rosto durante quase todo o tempo. Por isso, é preciso entrar na lógica da Santa Missa, que é a lógica do sacrifício, da propiciação, do silêncio e da adoração. É importante que cada fiel aproveite a Santa Missa com uma preparação consciente, uma assistência contemplativa e uma ação de graças intensa.
Externamente, preparam-se para assistir à Santa Missa, aqueles católicos que guardam o jejum eucarístico e ornam seu corpo para encontrarem-se com Deus. Ou seja, é preciso ser católico, isto é, batizado na Igreja Católica. Além do mais, há que ficar sem comer nem beber nada, exceto água e remédios, três horas antes da comunhão, no caso daqueles que irão comungar.
De fato, os fiéis que se encontram na tradição católica fazem 3 horas de jejum antes do Santo Sacrifício da Missa. No caso dos padres, fazem jejum de 3 horas antes da Missa; os fiéis não-sacerdotes fazem-no de 3 horas antes da comunhão. Em ambos os casos trata-se de um vivo conselho, ainda que a obrigação estrita seja de 1 hora antes da comunhão tanto para os padres como para os demais fiéis. No entanto, todos somos vivamente aconselhados a viver o jejum de 3 horas para não relaxarmos em nada em nosso amor para com o Sacramento da Sagrada Eucaristia. O Papa Pio XII, ao autorizar a celebração das missas vespertinas (pelas mudanças de horários e compromissos profissionais dos fiéis depois da guerra mundial), autorizou também o jejum de 3 horas. Tenha-se em conta que a disciplina era, naquele então, ficar de jejum desde a meia-noite para que se pudesse comungar na Santa Missa.
Além do mais, os fiéis devem ornar seus corpos devidamente. Os homens devem ir à Santa Missa de calça e camisa, não de shorts ou bermudas nem devem utilizar camisetas; sem dúvida alguma, um estilo mais social é mais digno do que um estilo esportivo. Quanto às mulheres devem trajar saias ou vestidos que lhes cubram os joelhos, não devem ter decotes nem mostrar os ombros; além do mais devem utilizar véus em suas cabeças, sendo a cor branca reservada para as mulheres solteiras. É preciso recordar que o véu é de tradição apostólica (cf. 1 Cor 11,1-16).
Quanto às crianças, mesmo as que não comungam, devem imitar o vestuário dos pais, mas não precisam com rigor realizar o jejum eucarístico até sua primeira comunhão. Evidentemente, pessoas idosas e doentes podem ter em conta, prévia consulta com um sacerdote fiel à tradição católica, diminuir o tempo do jejum eucarístico por motivos graves e justos.
Externamente, os fiéis observam os momentos na Santa Missa que devem ficar de pé, sentados ou de joelhos. Há muitos livros que ensinam essas posturas; contudo, o mais fácil é observar como fazem os fiéis piedosos que já assistem há algum tempo o Santo Sacrifício e seguir-lhes as posturas durante a Santa Missa. O católico sabe que não somente o seu espírito reza, mas também o seu corpo através dos gestos e da disciplina que a oração da Igreja lhes impõe.
Internamente, os fiéis devem se preparar pela graça de Deus, que é o mais importante tanto no que se refere a assistir com frutos a Santa Missa quanto à comunhão eucarística, já que estar na graça de Deus é a condição necessária para receber o Corpo adorabilíssimo de Nosso Senhor Jesus Cristo na Santa Missa. Dito de maneira bem simples, estar em graça de Deus é não ter cometido nenhum pecado mortal desde a última confissão bem feita. Ou seja, ninguém pode comungar em pecado mortal, por mais arrependido que esteja.
Chega, finalmente, o momento: a Missa vai começar. Todos se põem de pé e ficam atentos e reverentes à entrada do sacerdote, fazendo uma pequena inclinação de cabeça, pois o padre atua na Pessoa de Cristo Cabeça em cada Santa Missa, é o ministro do sacrifício, é o sacerdote quem torna presente o sacerdote do Novo Testamento, Nosso Senhor Jesus Cristo. O sacerdote acaba de passar pelo corredor central, entre os fiéis, e agora… como continuar a assistir a Santa Missa? Certamente estes conselhos pedem continuação em outro artigo…
Pe. Françoá Costa,
Brasília, 15 de novembro de 2025

